quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Férias? Não, um novo começo.


Chegou a hora, finalmente. Um ano volvido desde que o comecei a fazer, acaba assim a primeira parte da aventura: o seu planeamento. Não foi fácil, de todo. Sei agora para onde vou, por onde vou, como lá vou chegar e o que lá vou ver. Há-de haver imprevistos e ligeiras mudanças de planos, claro, mas a rota está traçada. São 600 dias, para ver 228 cidades em 35 países. Não são férias, é sim um novo começo - um que vai traçar o resto da minha vida e que vou receber de braços bem abertos.

Confesso que, ainda que esteja a cerca de cinquenta dias da partida, não saiba bem o que esperar da viagem, tal a sua imensidão. Tenho a certeza que expectativas vão ser superadas, igualadas e, em alguns casos, defraudadas - faz tudo parte da experiência, e não me assusta minimamente. De cabeça, são estas as coisas que me vão deixando com vontade de ir dormir à noite, excitado por faltar menos um dia até estar num avião a caminho da Rússia.

Moscovo, claro. A Praça Vermelha, com as suas torres icónicas. O comboio Transiberiano (cinco dias sem parar) de Moscovo para a Mongólia. Passear pelas ruas de Ulaanbaatar, longe de tudo e no meio de nada. A Tiananmen Square e a Grande Muralha da China, ambos em/perto de Pequim. O mosteiro enfiado nas rochas, em Datong. Os guerreiros de Terracotta em Xi'an. Os mil e um montes que prometem vida eterna a quem alcançar o topo que a China tem para oferecer (maioritariamente aquele com 5000 degraus). A loucura de Seoul, na Coreia do Sul, apetrechada com uma visita à zona militarizada na fronteira com a Coreia do Norte. A ilha de Jeju, com todo o seu misticismo e a curiosidade de experimentar um jjimjilbang.

Apanhar o ferry quase super sónico da Coreia do Sul para o Japão e, aí, apanhar o definitivamente super sónico comboio bala. Visitar o local onde caiu a bomba atómica, em Hiroshima, e o memorial ao tremor de terra de 1995, em Kobe. Perder-me por ruas estreitas e absorver ao máximo as cores de Outono, entre templos de beleza excepcional. Andar de bicicleta à volta do lago, em Kawaguchiko, com o Monte Fuji ali ao lado. Tóquio e a sua loucura, desde passadeiras atulhadas de pessoas até aos metros onde não cabe nem mais uma alma, não esquecendo as ruas cheias de néones e a irreverência de estilos.

Voltar para a China, certamente. Andar à beira rio em Xangai, saboreando as famosas formas arquitectónicas que decoram a outra margem. Perder-me por completo no parque de Zhangjiajie, com seus pilares de pedra enormemente assustadores e vistas de cortar a respiração. Relaxar a bordo do cruzeiro no rio Yangtze e apreciar a monstruosidade que é a barragem dos Three Gorges. Ver os pandas em Chengdu e subir ao topo do buda gigante, em Leshan. Esquecer que existe mais mundo lá fora, nas paisagens idílicas de Guilin e Yangshuo. Passar o Natal em Hong Kong, entre pilhas de quadradinhos que moldam a cidade em altura. Visitar a Disneyland num dia e ir a Macau noutro, para me perder em ruas com nomes familiares e caminhar em calçada portuguesa.

Encontrar-me com o meu irmão em Hanoi, no Vietname, para um mês de viagem acompanhado. Ir à belíssima baía de Ha Long. Passar o ano em Phong Nha, numa casa com vista para campos verdes, lagos e búfalos de água - no meio do nada, claro. Visitar à gruta de Tu Lan, depois de uma caminhada de cerca de cinco horas por selva vietnamita. Atravessar a fronteira do Vietname para o Camboja de barco. Visitar os Campos da Morte, em Phnom Penh. Perder-me dentro do imponente complexo de Angkor Wat. Sentir se Bankok, na Tailândia, vive à altura da má reputação que tem. Atravessar a ponte sobre o rio Kwai.

Terminar a visita ao Laos com uma relaxada viagem de barco de dois dias de volta para a Tailândia. Andar à deriva, ao longo de duas semanas, nalgumas das melhores praias do mundo - no sul do país. Areia branca, água transparente e muito sol. Passar quatro dias sem fazer absolutamente nada num pequeno paraíso chamado Kecil, nas Ilhas Perhentian, Malásia. Andar perdido na selva em Taman Negara e enfrentar com coragem a selva de cimento que é Kuala Lumpur. Apreciar a grandeza das Torres Petronas. Ir visitar a capital do Brunei num dia e voltar no seguinte, só porque sim.

Visitar Singapura e passar um dia nos Universal Studios (os meus terceiros, depois de Los Angeles e Orlando!). Visitar os templos de Borobudur e Prambanan, perto de Yogyakarta, Indonésia. Subir ao topo do Bromo, um vulcão activo, e também à Cratera de Ijen. Descansar em Sanur, no Bali, depois dessa aventura. Ir de propósito à ilha de Flores para ver os Dragões-de-Komodo no seu habitat natural.

Chegar à Austrália. Apanhar o Indian Pacific até Adelaide (dois dias de viagem). Vibrar com a arquitectura de Melbourne e fazer a Great Ocean Road, incluindo os 12 Apóstolos. Passear em Sydney e tirar uma fotografia em frente à Opera House. Apreciar a grandiosidade do Milford Sound, perto de Queensland, Nova Zelândia. Caminhar nos glaciares Fox e Franz Josef. Visitar o Hobbiton, onde foi filmado o Senhor dos Anéis - também na Nova Zelândia.

Passar três semanas no Havai. Fazer shark cage diving, subir a (proíbida) Stairway to Heaven e fazer a tour do Lost, em Oahu. Celebrar o meu 33º aniversário (no dia 250 da viagem!) em Kauai, a ilha onde foi filmada uma das cenas iniciais do Jurassic Park. Percorrer a Na Pali Coast, como se não houvesse amanhã. Deixar-me absorver por tamanha beleza natural - desde praias a quedas de água, vales a montanhas. Andar por Maui como se fosse local.

Aterrar em Vancouver, no Canadá, ainda a tempo de desejar os parabéns à mãe do meu afilhado! Passar duas semanas na companhia dele e dos pais - de preferência com muitas horas passadas num parque a jogar à bola. Andar por Banff, de bicicleta, a saborear cada centímetro de vista que a paisagem tem para oferecer; desde lagos azuis ao contraste entre o verde das árvores e o cinzento das montanhas. Fazer vinte horas de viagem dentro de um autocarro entre Edmonton e Winnipeg, para, partindo no dia seguinte, fazer mais trinta horas até Toronto (a centésima cidade da viagem!).

Explorar a cidade de Toronto e visitar as Cataratas do Niágara, a caminho dos Estados Unidos. Passear com cautela em Detroit e avaliar quão delapidada a bonita arquitectura da cidade está (se é que está). Passear junto ao rio em Chicago e devorar com os olhos as obras do Mies van der Rohe e do Frank Lloyd Wright espalhadas pela cidade. Frequentar bares de jazz. Ver o arco de St. Louis. Visitar a casa do Elvis, em Graceland, Memphis. Passar uma noite a apreciar boa música ao vivo num bar velho em Nashville, acompanhado de uma bebida gelada.

Visitar o museu da Coca-Cola, em Atlanta! Ir ao meu primeiro Six Flags, também lá. Perder-me completamente em quase todos os museus que Washington tem para oferecer. Ir à Casa Branca. Passar dez relaxados dias em Nova Iorque com os meus pais. Andar boemiamente pelas ruas de Nova Orleães. Derreter em várias cidades do Texas, na altura mais quente para as visitar. Visitar o meu segundo Six Flags, em San Antonio. Tirar uma foto no Pollos Hermanos e em frente à casa do Walter White, em Albuquerque.

Atravessar o Copper Canyon - entre Chihuahua e Los Mochis - de comboio, no México. Fazer praia em Mazatlán e Puerto Vallarta. Explorar a Cidade do México com olhos de aventurador. Visitar Chichen Itza. Fazer praia em Cancún. Passar quase duas semanas a passear em Cuba. Fazer praia em Tulum, no México. Parar na Cidade de Belize - no Belize - pelas piores razões (será tão perigosa quanto dizem?). Ir ao Tikal, na Guatemala. Atravessar El Salvador, as Honduras, a Nicarágua e a Costa Rica, para chegar à Cidade do Panamá e visitar o espectacular canal antes de seguir para a América do Sul.

Andar de autocarro na Colômbia. Explorar Bogotá a pé. Andar mais de autocarro na Colômbia (por vales e montanhas, desafiando ravinas sem fundo). Descobrir a perdida Catedral de Las Lajas em Ipiales, junto à fronteira com o Equador. Tirar uma foto no marcador que separa os hemisférios, em Quito, Equador. Explorar Lima, no Peru, e degustar a sua arquitectura colonial linda de morrer. Descansar no oásis de Huacachina. Ver as incríveis linhas de Nasca, da janela de uma avioneta.

Passar o Natal e o Ano Novo em Cusco, com uma - muito antecipada - ida ao Machu Picchu pelo meio. Perder o tempo que for necessário a observar o lago Titicaca, em Puno, no Peru; e em Copacabana, na Bolívia. Andar com calma e vagar (por causa da altitude) em La Paz e descer a Estrada da Morte de bicicleta. Atravessar o Salar de Uyuni e ficar absolutamente embevecido pela vista das salinas. Aproveitar ao máximo tudo o que San Pedro de Atacama, no Chile, tem para oferecer: desde geysers a lagoas, não esquecendo o Vale da Lua. Andar à solta em Santiago. Deixar-me levar pela vista idílica de Puerto Varas. Apreciar as igrejas de Castro.

Atravessar parte da Argentina de autocarro na praticamente não pavimentada Ruta 40. Absorver a beleza natural do Monte Fitz Roy e do glaciar Perito Moreno, ambos na Patagónia - Argentina. Voltar ao Chile para fazer uma caminhada de quatro dias (com vistas de outro mundo) no parque natural de Torres del Paine. Chegar a Ushuaia, o "fim do mundo". Visitar Buenos Aires e apreciar sua arquitectura europeia lindíssima. Andar despreocupadamente pelas ruas de Montevideo e ir descansadamente à praia em Punta del Este, ambos no Uruguai.

Andar de praia em praia, em Florianópolis, no Brasil. Deixar-me levar pela beleza natural da Foz da Iguaçu - de ambos os lados da fronteira. Ir ao Paraguai, só porque sim. Explorar Brasília e sua arquitectura futurista. Fazer uma expedição de quatro dias na selva amazónica. Descer o rio Amazonas (pelo meio da selva), em direcção a Belém, numa viagem que vai demorar cerca de uma semana.

Andar à deriva pelas cidades do nordeste brasileiro, com suas inúmeras referências coloniais. Subir ao topo do Cristo Redentor e visitar o Maracanã, no Rio de Janeiro. Chegar à minha última cidade antes de voltar para a Europa: São Paulo! Explorar a cidade com a distinção que ela merece e, finalmente, acabar a viagem. O fim de um capítulo e - certamente - o começo de outro. Sim, de cabeça é mais ou menos isto, fora tudo o resto!

segunda-feira, 3 de março de 2014

Porque é que eu viajo?


Hoje quando acordei já só faltavam duzentos dias até ao dia em que me vou sentar, pela última vez, na cadeira que me vai ter visto crescer como pessoa ao longo de seis anos e meio dos sete que vou ter vivido em Londres. É estranho, claro. Comecei a contar os dias quando faltava exactamente um ano, ciente de que esta contagem decrescente seria uma boa motivação para aproveitar ao máximo estes últimos  doze meses em Londres - cidade a que devo bastante e da qual terei, certamente, largas saudades. O custo de viver apenas uma vez e querer fazê-lo bem às vezes passa por tomar decisões, errr, certas.

Quando comecei a planear a viagem ouvi várias vezes dizer que era maluco. Quando os contornos se tornaram reais, ouvi várias vezes dizer que era sortudo. Agora, que é real e está à porta, o que mais oiço é se não haverá espaço para mais um na mochila. Eu entendo que as pessoas não o digam por mal, porque a intenção não aparenta ser essa, mas faz-me confusão (embora seja compreensível) que tanta gente faça tão pouco pela sua própria felicidade. Uns vivem de sonhos, outros de objectivos - já o tinha dito anteriormente e volto a repetir.

Mas então, porque é que eu viajo? Não é por causa de nenhuma busca por uma ligação esotérica a algo que não quero entender nem por causa de encontros espirituais comigo mesmo em dimensões paralelas. Não sou hippie, não gosto de hippies nem daquilo que representam. Não busco o zen nem o lado mais profundo da minha alma. Eu sei de onde venho e sei onde pertenço. Viajar é uma aventura. É saciar a sede de descoberta. É partir sozinho à procura de desafios e coisas que nunca vi. Viajar, para mim, é quase tudo. O triângulo completa-se com a música e com o futebol: três coisas que hão-de ser sempre minhas independentemente de quem me rodeia.

Quando viajo, não preciso de passar muito tempo no mesmo sítio, preciso apenas de passar o tempo suficiente. Não tenho tempo para perder tempo e, até ter, hei-de continuar a fazer o máximo possível no mínimo de tempo possível. Excita-me descobrir o que está do outro lado da porta, o que está ao virar da esquina, o que vem a seguir, o próximo plano, etc. Não gosto de parar, não tenho tempo para parar. Quando o faço, faço-o de forma a aproveitá-lo ao máximo. Troco - sem piscar os olhos - noites de loucura regadas a álcool, drogas ou qualquer outro vício social do género por uma boa conversa com alguém que a tenha para oferecer. A riqueza do intelecto deixa-me mais excitado do que qualquer droga e não creio que isso irá mudar alguma vez.

Já viajei mais quilómetros sozinho do que a maioria irá viajar acompanhado; cada um deles foi um degrau que subi, uma lição que aprendi e uma experiência (inesquecível ou não) que vivi. Acima de tudo, eu gosto de descobrir até onde consigo levar as minhas capacidades. Qual é o limite. Quem eu verdadeiramente sou. Uma constante luta para eliminar o balanço entre quem sou em público e em privado, combatendo a contagiosa discrepância hipócrita que faz com o mundo seja - na sua grande maioria - um sítio tão ridiculamente falso.

O meu momento preferido em qualquer viagem que tenha feito (e hei-de fazer) é a primeira hora depois de chegar. Estar sozinho, pela primeira vez, num sítio que não conheço e apenas com uma ideia de para onde tenho de ir é um momento mágico. É aí que a adrenalina dispara e a aventura começa. Eu viajo porque posso. Porque acredito que o mundo está na palma da minha mão e só me cabe a mim fazer por percorrê-lo. Partilho as minhas histórias porque gosto de as escrever e porque acredito que hão-de motivar alguém a fazer o mesmo - seja ou não esse o caso.

Duzentos dias até faltarem cerca de dezoito meses, duzentas cidades, trinta países e quatro continentes até eu voltar a casa. O tempo está a passar mais rápido do que aquilo que eu gostaria, mas é assim mesmo que as coisas são - não me queixo. Não me posso queixar. Tudo o que tenho trabalhei para o ter e tudo o que vou fazer é graças a isso mesmo. Trinta e um anos de vida foram anos suficientes para perceber que uma das coisas que eu mais gosto de fazer é viver. É para isso que acordo todos os dias. Assim sendo, não admira que seja exactamente para isso que eu viajo: para me sentir vivo.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O meu dia preferido do ano.


Não é novidade que eu nutro bastante carinho pelo dia 31 de Dezembro; ano após ano, aquilo que ele significa para mim apenas se vai intensificando mais. Claro que isto pouco ou nada tem a ver com a loucura da celebração da passagem de ano (algo que eu desprezo quase completamente): da mesma forma que dia 31 representa o fim de um ciclo, o dia 1 representa o começo de outro - e é isso que faz com que goste tanto dele. Com o fim desse ciclo vem a oportunidade de poder olhar para trás e analisar com atenção onde sucedi, onde falhei, onde empreguei o meu tempo e se esse tempo foi bem empregue (entre outros). Uma lição vivida é uma lição aprendida, mas isso serve de muito pouco se não reflectirmos sobre o assunto e percebermos exactamente onde o problema está e não o voltarmos a repetir - contrariamente ao que vejo, repetidamente, acontecer à minha volta.

Este foi um ano estranho, um que eu consideraria ter sido o ano mais difícil da minha vida até agora. O trabalho foi o maior causador dessa dificuldade, tendo feito com que passasse vários meses ao leme de um navio que parecia destinado ao fundo do oceano e não ao retorno seguro a bom porto. Durante vários meses vivi, dia após dia, ansiosamente à espera de algo que corresse mal, por (ainda) não ter pessoas suficientes na minha equipa para a quantidade de trabalho existente. Trabalhei demasiadas horas extra e perdi outras tantas de sono. Até este ano, nunca me tinha acontecido não conseguir desligar nem para ir de férias; pior, ter receio de o fazer. Senti várias vezes o mundo a girar à minha volta a uma velocidade diferente da minha. Perguntei-me várias vezes porquê, mas a resposta foi sempre a mesma: porque sou capaz.

Eu acredito que sou mais forte do que mim mesmo (possivelmente derivado do facto de não acreditar em nenhum tipo de deus) e creio que seja essa força que me dá aquela energia extra para ultrapassar obstáculos como este. De certa forma, sinto (bastante) orgulho naquilo que consegui atingir depois de tanto tempo a remar contra a maré. Não foi fácil, mas a recompensa vai fazer valer a pena todo esforço e aquilo que ele me custou - fisica e psicologicamente. Como todos os anos (principalmente) desde que estou em Londres, este foi um ano de descoberta de limites e lições vividas - a principal deste que passou talvez tenha sido que apesar de depois da tempestade vir sempre a bonança, remando se chega lá muito mais depressa.

Daqui a nove meses (e uns dias) vou estar a caminho da Rússia, pronto a começar aquela que será, certamente, uma das grandes aventuras da minha vida: a minha primeira volta ao mundo (cerca de 200 cidades em cerca de 30 países em 4 continentes ao longo de cerca de 500 dias). Estou neste momento quase com um terço da viagem planeada e mal vejo a hora de acabar de o plano e a começar de vez. Já perdi conta às horas que gasto a fazê-lo, muito porque nada me dá mais prazer fazer do que isso.

Ainda é meio incrível pensar que vou passar um ano e meio a viajar, ideia que surgiu depois de um encontro casual em San Diego e uma visita ao Grand Canyon em 2011. Quase três anos volvidos, a ideia ganhou forma e rapidamente passou de rascunho para realidade. A realidade de que a segurança de um trabalho, um apartamento bem localizado em Londres e a certeza de um futuro em que aquilo que faço no meu tempo livro é - efectivamente - aquilo que mais gosto de fazer não é, definitivamente, para mim. Já há muito que aprendi que quando uma porta se fecha, outra se há-de abrir. Não tenho medo em deitar por terra aquilo que construí ao longo de quase sete anos em Londres: a experiência que tenho ninguém ma vai tirar, o resto fica bem em memórias.

Não vejo sonhos como sonhos. Um sonho, para mim, é um objectivo. Pode ser um que nunca irei atingir, mas é a força que a ideia de lá chegar gera que me faz continuar a querer acordar todos os dias para chegar um bocadinho mais perto dele. Esta viagem não era um sonho. Nunca foi. Sempre foi um objectivo. Como o foi vir viver para Londres. Como o será ir viver para Manchester depois de acabar a viagem. Quanto mais sonhos as pessoas têm, menos objectivos concretizam. A vida só tem uma direcção e velocidade, não vale a pena perder ambos com algo intangível. Fazer é acontecer e, inevitavelmente, acontecer passa a ser viver.

O próximo ano vai, portanto, ser um ano de mudança. Vai ser um ano que vou viver em contagem decrescente e um que, apesar de querer que passe rápido, também quero que passe devagar. Londres foi a cidade que fez de mim um homem. Foi Londres que me abriu os olhos e me expandiu a mente. Quem eu sou hoje como pessoa devo - principalmente - a Londres, porque foi cá que tudo aconteceu e onde tudo se proporcionou. É uma cidade feita à minha medida, parte do motivo que me fez vir viver para cá num período pré-crise. Portugal não é um país onde eu me insira. A mentalidade é diferente. As pessoas são diferentes. Nada acontece. Muito se rouba. Orgulho-me da minha língua materna e do sangue de descobridor dos meus antepassados, de resto... não há resto - por infeliz que isso seja. Ao contrário do que sucedeu com Lisboa (e Portugal), sei que vou sentir saudades de Londres.

Uma das principais mudanças neste novo ano vai ser o encerramento da minha conta no Facebook. Estou farto. A quantidade de tempo que o Facebook me rouba não justifica o tempo que lá passo. É tempo perdido. Tempo que seria melhor empregue a fazer outras coisas. Ano após ano me tenho vindo a aperceber que o que se passa na vida dos outros me interessa muito pouco. Os meus amigos chegados estarão sempre perto e os outros serão apenas conhecidos. Há três anos apaguei o MySpace e decidi não voltar a participar em nenhum fórum online nem em chats, por achá-los uma perda de tempo - algo que mantenho até hoje. Este ano vai marcar o fim da minha presença em qualquer rede social deste género - creio ter chegado a um ponto onde não tenho tempo ou interesse em estar contactável para além do telefone ou do email. Claro que, apesar de ir apagar o meu perfil (algo que só vai acontecer antes de ir viajar, por motivos logísticos), vou manter a minha página pessoal, onde continuarei a publicar updates.

O novo ano vai ser um bom ano. Vai ser um ano de muitos fins e muitos princípios. Vai ser - muito provavelmente - um dos anos mais marcantes na minha vida. Vai ser o ano em que eu vou desligar completamente e partir à aventura. Vai ser o ano que marca a chegada ao fim da rampa que me propus percorrer quando vim para Londres. Vai ser depois desta viagem que tudo vai começar para mim, e eu mal posso esperar que isso aconteça. Eu acordo todos os dias para lutar e é por lutar que consigo vencer - tenho agora perfeita certeza disso. A todos os que vão, de facto, fazer algo para melhorar a sua própria vida no ano que vem, eu desejo um óptimo ano - espero que consigam chegar mais perto de alcançar todos os objectivos por que lutam. Espero que aprendam com os erros. Espero que não desistam. Espero que, acima de tudo, se divirtam a fazê-lo. A melhor dica que vos posso dar? Vivam. A vossa vida é vossa para viver, ninguém o vai fazer por vocês - e isso é uma certeza.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Pedras.


De todas as experiências por que já passei nos últimos trinta e um anos, posso afirmar com bastante certeza que nenhuma é tão reconfortante ou rica como o acto de criar, ou fazer acontecer. Desde passar da palavra à acção a suar o nosso próprio suor por algo em que acreditamos, ver um projecto nascer e sentir o orgulho de estar na presença de algo que tenha sido fruto do nosso esforço e dedicação. É uma sensação difícil de descrever, mas que vale todos os segundos investidos em alcançá-la.

No entanto, para todas as palavras de apoio, motivadoras ou de congratulação que se vai recebendo pelo caminho, há sempre um convidado que aparece sem ter sido convidado. Há sempre alguém que, sem o mínimo de consideração, se vai dar ao trabalho de criticar negativamente e deitar abaixo o resultado final de um processo que não foi curto e de um esforço que não foi em vão. Claro que "é a vida" e "faz parte", mas, apesar de tudo, não deixa de ser aquele arranhar de garganta desconfortável numa manhã fria de Inverno; algo que certamente poderia bem não existir, uma vez que não acrescenta nada de novo nem faz falta.

Independentemente do quer que esteja a ser criado, vai haver quem se vá divertir a colocar-lhe pedras à frente - seja durante o processo criativo ou após a sua conclusão. Já há algum tempo que aquilo que os outros pensam, a não ser que tenha sido inquirido por mim, me passa um pouco ao lado. Não que me queira abstrair de opiniões alheias, mas quanto mais importância lhes der, menos me concentro no produto final e deixo que o meu processo criativo seja interrompido. Mil boas opiniões não vão impedir que uma negativa tenha o impacto oposto e destrua por completo toda uma percepção criada ao longo desse processo. É difícil agradar toda a gente, tornando-se óbvio que o 'agradar' deve ficar apenas reservado para os que valorizam o trabalho que lhes é apresentado.

Traduzindo à letra parte de uma das minhas letras preferidas dos Gorilla Biscuits, "a chave do sucesso é a fé em saber que estamos certos", e é sempre nisso que penso. Vai haver sempre alguém que vai falar mal, vai haver sempre alguém que vai deitar abaixo e vai sempre haver alguém que nunca vai perceber, mas, para todos esses, vão haver outros tantos para provar que todo o esforço valeu a pena. Uma pedra é apenas isso, um obstáculo no caminho de algo muito maior e mais importante que qualquer atenção que lhe seja dada. Acreditar é a primeira, e mais importante, parte do fazer acontecer. Muito para além daquilo que os outros pensam, o mais importante é acreditarmos em nós mesmos e na nossa capacidade de levar um projecto até ao fim. O primeiro resultado nunca é o final e cada falhanço é uma lição que há-de ser útil num futuro próximo ou distante.

No outro dia alguém me perguntou se eu não me ocuparia demasiado apenas para ter alguma em que pensar, algo que me deixou - efectivamente - a pensar. Será esse o caso? Dias depois cruzei-me com esta frase e não poderia identificar-me mais com ela: "One of the finest protections against disappointment is to have a lot going on." É um pouco como jogar na lotaria, quanto mais apostares, mais chances tens de ganhar. Embora o prémio de uma lotaria tenha um maior valor monetário, nada bate a sensação de ter algo positivamente associado ao nosso nome e o reconhecimento que isso trás - é um facto contra o qual não há argumento possível. As pedras, bom, as pedras que vão colocando no meu caminho ao longo deste percurso, eu vou guardando-as no bolso, para um dia, quando estiver à beira de um lago, ver quantas vezes as consigo fazer ressaltar à tona da água antes de mergulharem para não mais serem vistas.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Viajar sem companhia não é perigoso, antes pelo contrário.


Eu gosto de viajar sozinho. Não, eu vivo para viajar sozinho. Não que tenha algum problema (anti) social ou me sinta incapaz de partilhar a magia de uma viagem com alguém, longe disso. Viajar, como o tenho descoberto a cada viagem que faço, é uma das maiores lições que a vida nos pode dar. Parece que, após voltar de cada uma delas, a minha percepção sobre um ou outro assunto muda radicalmente; parece que a minha reacção em relação a certas atitudes que me rodeiam no dia a dia passa a ser outra, mais calma, mais relaxada: mais indiferente. Como se algo a que eu tivesse dado muita importância anteriormente passasse a ser meramente irrelevante.

Mas porquê viajar sozinho? Viajar acompanhado não impede que nada do que mencionei acima deixe de acontecer. Quer dizer, impede... e não impede. Para além da razão mais óbvia, que é conseguir ver o dobro das coisas em metade do tempo (isto por experiência própria - apenas dependendo do espírito aventureiro e energia de cada um) e de não ter de depender de ninguém (em termos de orçamentos e trajectos), há o passar tempo sozinho; nós na nossa companhia. Horas e horas. Dias e dias. Viagens longas de autocarro, de comboio, de avião. É aí que começa o desafio, porque - eventualmente - é aí que nos começamos a testar a nós próprios e às nossas capacidades.

A origem da minha vontade (e, até certo ponto, capacidade) de viajar sozinho é relativamente fácil de identificar, uma vez que até meio da minha adolescência passei muito tempo sozinho. Não que tenha tido uma infância infeliz - pelo contrário - mas os meus interesses, desde novo, eram bem diferentes dos 'dos outros' - estamos a falar de horas passadas fosse a montar puzzles, organizar CDs por ordem alfabética, ou mesmo a jogar Tetris (que ainda continua a ser o meu jogo de Game Boy preferido). Nunca senti necessidade de pertencer a nenhum dos grupos que se formaram à minha volta nessa altura e não foi até descobrir o hardcore que tal aconteceu.

Ainda que o hardcore me tenha ensinado muitas lições pelas quais hei-de estar eternamente grato (já me safaram bastantes vezes, nas mais diversas situações), não foi até começar a viajar sozinho que comecei a crescer a passos largos, não só como pessoa mas também como ser humano. Ver e viver realidades diferentes, tenha sido em Paris, Philadelphia, Constantine, ou qualquer outra cidade que visitei, deixou a sua marca - e que marca. Até certo ponto, ajudou-me - a pouco e pouco - a chegar mais perto de descobrir quem eu sou, perceber o que é que estou a fazer neste mundo e onde quero chegar na vida.

Não censuro quem apenas consiga viajar acompanhado, da mesma forma que não acredito que viajar sozinho seja para qualquer um. São experiências diferentes e mentalidades opostas. Ao viajar sozinho é mais que certo que a determinada altura, em determinado lugar, nos vamos cruzar com alguém que nos vai ajudar e, nesse momento, o gesto dessa pessoa vai ser tudo aquilo que precisamos e vai-nos fazer ver o mundo de outra perspectiva. Aconteceu-me em Tijuana, quando o Juan (deportado dos Estados Unidos nos anos 70 por tráfico de droga) perdeu umas boas cinco horas do seu tempo para me mostrar a cidade; em Annaba (na Argélia) quando uma senhora, que não falava uma palavra de inglês, me levou a conhecer o irmão, dono de um café na praça principal, para ele poder ficar de olho em mim e garantir que não me acontecia nada de mal; e no Reno, quando o Orlando me ofereceu boleia à saída de uma estação de serviço a meio da noite porque achou estranho eu andar perdido numa das zonas mais perigosas da cidade - entre outras.

É nesses momentos que eu sinto que cresço a passos vistos e consigo perceber quão maduro sou como adulto. Ajuda-me também a perceber até onde me consigo deixar levar e quais são os meus limites. Muito do homem que sou hoje devo-o, principalmente, às viagens que fiz nos últimos três anos. A claridade vai surgindo aos poucos, através de uma combinação que envolve o tempo que perco a pensar para comigo mesmo, as pessoas com quem me cruzo e as coisas que vou vendo pelo caminho. Claro que viajar acompanhado pode bem ser um fartote desmedido, mas nos dias que correm, as viagens para mim são muito mais que um passeio turístico - são um ponto de aprendizagem onde sacio a minha sede por descoberta e testo a adrenalina para ver qual é o meu limite, sem companhia nem distracções.

Já dizia o Alex Supertramp: "The very basic core of a man’s living spirit is his passion for adventure. The joy of life comes from our encounters with new experiences, and hence there is no greater joy than to have an endlessly changing horizon, for each day to have a new and different sun." E eu não poderia concordar mais, orgulho-me de poder dizer que é para isso que acordo todos os dias. Há um dia na nossa vida em que deixamos de esperar que ela aconteça e a começamos a viver, só tenho pena que a maioria das pessoas não se empenhe o suficiente para o encontrar.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Domingo fiz anos, mas não quero que me dêem os parabéns.


Não, de todo. Honestamente, o dia de anos (assim como a passagem de ano) serve-me apenas para uma coisa: olhar seis meses para trás e analisar aquilo que fiz e aquilo que cresci como pessoa. Ter nascido no início de Junho ajuda a balançar a análise. Nunca levei aniversários muito a sério, provavelmente porque, no que toca à minha vida, não gosto que outras pessoas dêem demasiada importância a coisas que a mim me dizem pouca.

Já há muito que escondo o meu aniversário de redes sociais de modo a evitar a torrente de parabenizantes que, muito provavelmente, não se lembrariam de mim no resto do ano. A razão principal, no entanto, é o gesto mecânico que parece vir acoplado a essa acção. Qual passa a ser o significado? Qual passa a  ser a mensagem? Não vou agradecer a alguém por se ter lembrado, uma vez que tal não foi o caso. Prefiro que apenas meia dúzia se lembre genuinamente do que duas centenas sejam lembradas pelo lembrete do Facebook. Aos meus olhos, o aniversário de alguém que gostamos é um óptimo pretexto para lembrarmos essa pessoa disso mesmo e lhe desejarmos bem. Afinal, são esses mesmos que acabam por contar.

Mas, não fugindo ao título, este ano estou, pela primeira vez em muito tempo, a anunciar publicamente o meu aniversário. Estou a fazê-lo exactamente porque não quero que me dêem os parabéns. Quero antes que, caso gostem de mim e o quiserem mostrar, optem por me ajudar a juntar dinheiro para a minha viagem, uma vez que estou a menos de ano e meio de a começar. Já tinha falado disto anteriormente e hei-de o voltar a fazer várias vezes até Outubro de 2014 - quando parto efectivamente para Moscovo.

Em vez de me darem os parabéns, comprem o meu livro. Se já o fizeram, por favor sugiram-no a alguém que achem que iria gostar de o ler (está à venda na minha loja e na FNAC do Chiado). Nesse âmbito, se conhecerem alguém que o possa promover de alguma forma, por favor digam-me. Estaria mais do que disponível em enviar cópias promocionais (ou, eventualmente, oferecer-me como cronista).

Para além do livro, caso gostem de hardcore ou punk rock, passem os olhos n'A Loja do André. Tudo o que tenho é para despachar, uma vez que a prioridade está na viagem. Por fim, mandei fazer há tempos as t-shirts abaixo numa parceria com a Juicy Records. O design é tirado de um sinal que eu vi em Philadelphia, quando lá estive em 2011 e há três cores disponíveis (preto, vermelho e verde). Qualquer ajuda é bem vinda, e muito mais valiosa que qualquer desejo de parabéns, por mais bem intencionado que seja. Obrigado!


sábado, 1 de junho de 2013

O tempo passa, vai passando.


Há semanas duras; semanas em que dias de oito horas passam a ter nove, dez, ou onze esgotantes horas. Semanas em que o tempo livre deixa de existir, em que a vontade de fazer alguma coisa que se veja se reduz ao tamanho de pouco mais do que uma pequena migalha. Semanas assim são cada vez mais raras na minha vida mas, infelizmente, de vez em quando gostam de dar o ar da sua graça e aparecer sem aviso. Esta foi uma delas.

Já é Junho. Entre outras coisas, isso significa que estou a menos de ano e meio até partir na minha viagem (esta); até poder dizer adeus a sete anos (muito bem) passados em Londres e até terminarem todos os hábitos e laços que fui criando nesta cidade ao longo desse tempo. Com este fim vem, principalmente, a oportunidade de começar do zero quando voltar - se decidir vir para Londres (estou entre isso ou Manchester). É esse motivo (e apenas ele) que dá algum sentido às horas passadas a trabalhar.

Junho marca então o começo de algo que eu tenho vindo a adiar há mais tempo do que aquilo que devia: o aperto do cinto. Estimei um orçamento de £15.000 para a viagem, que supostamente me irão durar qualquer coisa como ano e meio (calculando um orçamento de cerca de £1.000 por mês, mais coisa menos coisa). Estou neste momento a cerca de £10.000 de distância desse objectivo e o aperto do cinto já se fez sentir. O primeiro corte - por muito que me custe - foi nos concertos; o segundo na comida; e o terceiro nas viagens. É duro. Mas também tem tanto de duro como de estado de espírito, e eu sei que o esforço vai valer a pena.

Eu costumo dividir as minhas viagens em três fases que me satisfazem de formas diferentes: o planeamento, a concretização, e a conclusão por escrito (onde acabo, de certa forma, por reviver todos os momentos vividos na estrada). Estar já no primeiro vai, certamente, ajudar o tempo a passar mais rápido. Moscovo e Ulaanbaatar já estão fora do caminho. O Trans-Siberiano vai sendo planeado, assim como os primeiros passos na China, forma de chegar à Coreia do Sul e daí até ao Japão.

Quem diria que uma curta conversa com duas australianas num hostel em San Diego e, dias mais tarde, a imensidão do Grand Canyon me fossem - inconscientemente - lançar para tamanho desafio? Eu não; e sei que, no fundo, semanas duras como esta foi não passam disso. Cada semana que passa, dura ou não, é apenas menos uma semana até eu aterrar em Moscovo e dar início à maior jornada da minha vida. O relógio está a contar, o tempo vai passando e a força de vontade crescendo. Honestamente, eu sei que não pode ser de outra forma, e é isso que me mantém focado - dia após dia.