quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Férias? Não, um novo começo.


Chegou a hora, finalmente. Um ano volvido desde que o comecei a fazer, acaba assim a primeira parte da aventura: o seu planeamento. Não foi fácil, de todo. Sei agora para onde vou, por onde vou, como lá vou chegar e o que lá vou ver. Há-de haver imprevistos e ligeiras mudanças de planos, claro, mas a rota está traçada. São 600 dias, para ver 228 cidades em 35 países. Não são férias, é sim um novo começo - um que vai traçar o resto da minha vida e que vou receber de braços bem abertos.

Confesso que, ainda que esteja a cerca de cinquenta dias da partida, não saiba bem o que esperar da viagem, tal a sua imensidão. Tenho a certeza que expectativas vão ser superadas, igualadas e, em alguns casos, defraudadas - faz tudo parte da experiência, e não me assusta minimamente. De cabeça, são estas as coisas que me vão deixando com vontade de ir dormir à noite, excitado por faltar menos um dia até estar num avião a caminho da Rússia.

Moscovo, claro. A Praça Vermelha, com as suas torres icónicas. O comboio Transiberiano (cinco dias sem parar) de Moscovo para a Mongólia. Passear pelas ruas de Ulaanbaatar, longe de tudo e no meio de nada. A Tiananmen Square e a Grande Muralha da China, ambos em/perto de Pequim. O mosteiro enfiado nas rochas, em Datong. Os guerreiros de Terracotta em Xi'an. Os mil e um montes que prometem vida eterna a quem alcançar o topo que a China tem para oferecer (maioritariamente aquele com 5000 degraus). A loucura de Seoul, na Coreia do Sul, apetrechada com uma visita à zona militarizada na fronteira com a Coreia do Norte. A ilha de Jeju, com todo o seu misticismo e a curiosidade de experimentar um jjimjilbang.

Apanhar o ferry quase super sónico da Coreia do Sul para o Japão e, aí, apanhar o definitivamente super sónico comboio bala. Visitar o local onde caiu a bomba atómica, em Hiroshima, e o memorial ao tremor de terra de 1995, em Kobe. Perder-me por ruas estreitas e absorver ao máximo as cores de Outono, entre templos de beleza excepcional. Andar de bicicleta à volta do lago, em Kawaguchiko, com o Monte Fuji ali ao lado. Tóquio e a sua loucura, desde passadeiras atulhadas de pessoas até aos metros onde não cabe nem mais uma alma, não esquecendo as ruas cheias de néones e a irreverência de estilos.

Voltar para a China, certamente. Andar à beira rio em Xangai, saboreando as famosas formas arquitectónicas que decoram a outra margem. Perder-me por completo no parque de Zhangjiajie, com seus pilares de pedra enormemente assustadores e vistas de cortar a respiração. Relaxar a bordo do cruzeiro no rio Yangtze e apreciar a monstruosidade que é a barragem dos Three Gorges. Ver os pandas em Chengdu e subir ao topo do buda gigante, em Leshan. Esquecer que existe mais mundo lá fora, nas paisagens idílicas de Guilin e Yangshuo. Passar o Natal em Hong Kong, entre pilhas de quadradinhos que moldam a cidade em altura. Visitar a Disneyland num dia e ir a Macau noutro, para me perder em ruas com nomes familiares e caminhar em calçada portuguesa.

Encontrar-me com o meu irmão em Hanoi, no Vietname, para um mês de viagem acompanhado. Ir à belíssima baía de Ha Long. Passar o ano em Phong Nha, numa casa com vista para campos verdes, lagos e búfalos de água - no meio do nada, claro. Visitar à gruta de Tu Lan, depois de uma caminhada de cerca de cinco horas por selva vietnamita. Atravessar a fronteira do Vietname para o Camboja de barco. Visitar os Campos da Morte, em Phnom Penh. Perder-me dentro do imponente complexo de Angkor Wat. Sentir se Bankok, na Tailândia, vive à altura da má reputação que tem. Atravessar a ponte sobre o rio Kwai.

Terminar a visita ao Laos com uma relaxada viagem de barco de dois dias de volta para a Tailândia. Andar à deriva, ao longo de duas semanas, nalgumas das melhores praias do mundo - no sul do país. Areia branca, água transparente e muito sol. Passar quatro dias sem fazer absolutamente nada num pequeno paraíso chamado Kecil, nas Ilhas Perhentian, Malásia. Andar perdido na selva em Taman Negara e enfrentar com coragem a selva de cimento que é Kuala Lumpur. Apreciar a grandeza das Torres Petronas. Ir visitar a capital do Brunei num dia e voltar no seguinte, só porque sim.

Visitar Singapura e passar um dia nos Universal Studios (os meus terceiros, depois de Los Angeles e Orlando!). Visitar os templos de Borobudur e Prambanan, perto de Yogyakarta, Indonésia. Subir ao topo do Bromo, um vulcão activo, e também à Cratera de Ijen. Descansar em Sanur, no Bali, depois dessa aventura. Ir de propósito à ilha de Flores para ver os Dragões-de-Komodo no seu habitat natural.

Chegar à Austrália. Apanhar o Indian Pacific até Adelaide (dois dias de viagem). Vibrar com a arquitectura de Melbourne e fazer a Great Ocean Road, incluindo os 12 Apóstolos. Passear em Sydney e tirar uma fotografia em frente à Opera House. Apreciar a grandiosidade do Milford Sound, perto de Queensland, Nova Zelândia. Caminhar nos glaciares Fox e Franz Josef. Visitar o Hobbiton, onde foi filmado o Senhor dos Anéis - também na Nova Zelândia.

Passar três semanas no Havai. Fazer shark cage diving, subir a (proíbida) Stairway to Heaven e fazer a tour do Lost, em Oahu. Celebrar o meu 33º aniversário (no dia 250 da viagem!) em Kauai, a ilha onde foi filmada uma das cenas iniciais do Jurassic Park. Percorrer a Na Pali Coast, como se não houvesse amanhã. Deixar-me absorver por tamanha beleza natural - desde praias a quedas de água, vales a montanhas. Andar por Maui como se fosse local.

Aterrar em Vancouver, no Canadá, ainda a tempo de desejar os parabéns à mãe do meu afilhado! Passar duas semanas na companhia dele e dos pais - de preferência com muitas horas passadas num parque a jogar à bola. Andar por Banff, de bicicleta, a saborear cada centímetro de vista que a paisagem tem para oferecer; desde lagos azuis ao contraste entre o verde das árvores e o cinzento das montanhas. Fazer vinte horas de viagem dentro de um autocarro entre Edmonton e Winnipeg, para, partindo no dia seguinte, fazer mais trinta horas até Toronto (a centésima cidade da viagem!).

Explorar a cidade de Toronto e visitar as Cataratas do Niágara, a caminho dos Estados Unidos. Passear com cautela em Detroit e avaliar quão delapidada a bonita arquitectura da cidade está (se é que está). Passear junto ao rio em Chicago e devorar com os olhos as obras do Mies van der Rohe e do Frank Lloyd Wright espalhadas pela cidade. Frequentar bares de jazz. Ver o arco de St. Louis. Visitar a casa do Elvis, em Graceland, Memphis. Passar uma noite a apreciar boa música ao vivo num bar velho em Nashville, acompanhado de uma bebida gelada.

Visitar o museu da Coca-Cola, em Atlanta! Ir ao meu primeiro Six Flags, também lá. Perder-me completamente em quase todos os museus que Washington tem para oferecer. Ir à Casa Branca. Passar dez relaxados dias em Nova Iorque com os meus pais. Andar boemiamente pelas ruas de Nova Orleães. Derreter em várias cidades do Texas, na altura mais quente para as visitar. Visitar o meu segundo Six Flags, em San Antonio. Tirar uma foto no Pollos Hermanos e em frente à casa do Walter White, em Albuquerque.

Atravessar o Copper Canyon - entre Chihuahua e Los Mochis - de comboio, no México. Fazer praia em Mazatlán e Puerto Vallarta. Explorar a Cidade do México com olhos de aventurador. Visitar Chichen Itza. Fazer praia em Cancún. Passar quase duas semanas a passear em Cuba. Fazer praia em Tulum, no México. Parar na Cidade de Belize - no Belize - pelas piores razões (será tão perigosa quanto dizem?). Ir ao Tikal, na Guatemala. Atravessar El Salvador, as Honduras, a Nicarágua e a Costa Rica, para chegar à Cidade do Panamá e visitar o espectacular canal antes de seguir para a América do Sul.

Andar de autocarro na Colômbia. Explorar Bogotá a pé. Andar mais de autocarro na Colômbia (por vales e montanhas, desafiando ravinas sem fundo). Descobrir a perdida Catedral de Las Lajas em Ipiales, junto à fronteira com o Equador. Tirar uma foto no marcador que separa os hemisférios, em Quito, Equador. Explorar Lima, no Peru, e degustar a sua arquitectura colonial linda de morrer. Descansar no oásis de Huacachina. Ver as incríveis linhas de Nasca, da janela de uma avioneta.

Passar o Natal e o Ano Novo em Cusco, com uma - muito antecipada - ida ao Machu Picchu pelo meio. Perder o tempo que for necessário a observar o lago Titicaca, em Puno, no Peru; e em Copacabana, na Bolívia. Andar com calma e vagar (por causa da altitude) em La Paz e descer a Estrada da Morte de bicicleta. Atravessar o Salar de Uyuni e ficar absolutamente embevecido pela vista das salinas. Aproveitar ao máximo tudo o que San Pedro de Atacama, no Chile, tem para oferecer: desde geysers a lagoas, não esquecendo o Vale da Lua. Andar à solta em Santiago. Deixar-me levar pela vista idílica de Puerto Varas. Apreciar as igrejas de Castro.

Atravessar parte da Argentina de autocarro na praticamente não pavimentada Ruta 40. Absorver a beleza natural do Monte Fitz Roy e do glaciar Perito Moreno, ambos na Patagónia - Argentina. Voltar ao Chile para fazer uma caminhada de quatro dias (com vistas de outro mundo) no parque natural de Torres del Paine. Chegar a Ushuaia, o "fim do mundo". Visitar Buenos Aires e apreciar sua arquitectura europeia lindíssima. Andar despreocupadamente pelas ruas de Montevideo e ir descansadamente à praia em Punta del Este, ambos no Uruguai.

Andar de praia em praia, em Florianópolis, no Brasil. Deixar-me levar pela beleza natural da Foz da Iguaçu - de ambos os lados da fronteira. Ir ao Paraguai, só porque sim. Explorar Brasília e sua arquitectura futurista. Fazer uma expedição de quatro dias na selva amazónica. Descer o rio Amazonas (pelo meio da selva), em direcção a Belém, numa viagem que vai demorar cerca de uma semana.

Andar à deriva pelas cidades do nordeste brasileiro, com suas inúmeras referências coloniais. Subir ao topo do Cristo Redentor e visitar o Maracanã, no Rio de Janeiro. Chegar à minha última cidade antes de voltar para a Europa: São Paulo! Explorar a cidade com a distinção que ela merece e, finalmente, acabar a viagem. O fim de um capítulo e - certamente - o começo de outro. Sim, de cabeça é mais ou menos isto, fora tudo o resto!

segunda-feira, 3 de março de 2014

Porque é que eu viajo?


Hoje quando acordei já só faltavam duzentos dias até ao dia em que me vou sentar, pela última vez, na cadeira que me vai ter visto crescer como pessoa ao longo de seis anos e meio dos sete que vou ter vivido em Londres. É estranho, claro. Comecei a contar os dias quando faltava exactamente um ano, ciente de que esta contagem decrescente seria uma boa motivação para aproveitar ao máximo estes últimos  doze meses em Londres - cidade a que devo bastante e da qual terei, certamente, largas saudades. O custo de viver apenas uma vez e querer fazê-lo bem às vezes passa por tomar decisões, errr, certas.

Quando comecei a planear a viagem ouvi várias vezes dizer que era maluco. Quando os contornos se tornaram reais, ouvi várias vezes dizer que era sortudo. Agora, que é real e está à porta, o que mais oiço é se não haverá espaço para mais um na mochila. Eu entendo que as pessoas não o digam por mal, porque a intenção não aparenta ser essa, mas faz-me confusão (embora seja compreensível) que tanta gente faça tão pouco pela sua própria felicidade. Uns vivem de sonhos, outros de objectivos - já o tinha dito anteriormente e volto a repetir.

Mas então, porque é que eu viajo? Não é por causa de nenhuma busca por uma ligação esotérica a algo que não quero entender nem por causa de encontros espirituais comigo mesmo em dimensões paralelas. Não sou hippie, não gosto de hippies nem daquilo que representam. Não busco o zen nem o lado mais profundo da minha alma. Eu sei de onde venho e sei onde pertenço. Viajar é uma aventura. É saciar a sede de descoberta. É partir sozinho à procura de desafios e coisas que nunca vi. Viajar, para mim, é quase tudo. O triângulo completa-se com a música e com o futebol: três coisas que hão-de ser sempre minhas independentemente de quem me rodeia.

Quando viajo, não preciso de passar muito tempo no mesmo sítio, preciso apenas de passar o tempo suficiente. Não tenho tempo para perder tempo e, até ter, hei-de continuar a fazer o máximo possível no mínimo de tempo possível. Excita-me descobrir o que está do outro lado da porta, o que está ao virar da esquina, o que vem a seguir, o próximo plano, etc. Não gosto de parar, não tenho tempo para parar. Quando o faço, faço-o de forma a aproveitá-lo ao máximo. Troco - sem piscar os olhos - noites de loucura regadas a álcool, drogas ou qualquer outro vício social do género por uma boa conversa com alguém que a tenha para oferecer. A riqueza do intelecto deixa-me mais excitado do que qualquer droga e não creio que isso irá mudar alguma vez.

Já viajei mais quilómetros sozinho do que a maioria irá viajar acompanhado; cada um deles foi um degrau que subi, uma lição que aprendi e uma experiência (inesquecível ou não) que vivi. Acima de tudo, eu gosto de descobrir até onde consigo levar as minhas capacidades. Qual é o limite. Quem eu verdadeiramente sou. Uma constante luta para eliminar o balanço entre quem sou em público e em privado, combatendo a contagiosa discrepância hipócrita que faz com o mundo seja - na sua grande maioria - um sítio tão ridiculamente falso.

O meu momento preferido em qualquer viagem que tenha feito (e hei-de fazer) é a primeira hora depois de chegar. Estar sozinho, pela primeira vez, num sítio que não conheço e apenas com uma ideia de para onde tenho de ir é um momento mágico. É aí que a adrenalina dispara e a aventura começa. Eu viajo porque posso. Porque acredito que o mundo está na palma da minha mão e só me cabe a mim fazer por percorrê-lo. Partilho as minhas histórias porque gosto de as escrever e porque acredito que hão-de motivar alguém a fazer o mesmo - seja ou não esse o caso.

Duzentos dias até faltarem cerca de dezoito meses, duzentas cidades, trinta países e quatro continentes até eu voltar a casa. O tempo está a passar mais rápido do que aquilo que eu gostaria, mas é assim mesmo que as coisas são - não me queixo. Não me posso queixar. Tudo o que tenho trabalhei para o ter e tudo o que vou fazer é graças a isso mesmo. Trinta e um anos de vida foram anos suficientes para perceber que uma das coisas que eu mais gosto de fazer é viver. É para isso que acordo todos os dias. Assim sendo, não admira que seja exactamente para isso que eu viajo: para me sentir vivo.