segunda-feira, 3 de março de 2014
Porque é que eu viajo?
Hoje quando acordei já só faltavam duzentos dias até ao dia em que me vou sentar, pela última vez, na cadeira que me vai ter visto crescer como pessoa ao longo de seis anos e meio dos sete que vou ter vivido em Londres. É estranho, claro. Comecei a contar os dias quando faltava exactamente um ano, ciente de que esta contagem decrescente seria uma boa motivação para aproveitar ao máximo estes últimos doze meses em Londres - cidade a que devo bastante e da qual terei, certamente, largas saudades. O custo de viver apenas uma vez e querer fazê-lo bem às vezes passa por tomar decisões, errr, certas.
Quando comecei a planear a viagem ouvi várias vezes dizer que era maluco. Quando os contornos se tornaram reais, ouvi várias vezes dizer que era sortudo. Agora, que é real e está à porta, o que mais oiço é se não haverá espaço para mais um na mochila. Eu entendo que as pessoas não o digam por mal, porque a intenção não aparenta ser essa, mas faz-me confusão (embora seja compreensível) que tanta gente faça tão pouco pela sua própria felicidade. Uns vivem de sonhos, outros de objectivos - já o tinha dito anteriormente e volto a repetir.
Mas então, porque é que eu viajo? Não é por causa de nenhuma busca por uma ligação esotérica a algo que não quero entender nem por causa de encontros espirituais comigo mesmo em dimensões paralelas. Não sou hippie, não gosto de hippies nem daquilo que representam. Não busco o zen nem o lado mais profundo da minha alma. Eu sei de onde venho e sei onde pertenço. Viajar é uma aventura. É saciar a sede de descoberta. É partir sozinho à procura de desafios e coisas que nunca vi. Viajar, para mim, é quase tudo. O triângulo completa-se com a música e com o futebol: três coisas que hão-de ser sempre minhas independentemente de quem me rodeia.
Quando viajo, não preciso de passar muito tempo no mesmo sítio, preciso apenas de passar o tempo suficiente. Não tenho tempo para perder tempo e, até ter, hei-de continuar a fazer o máximo possível no mínimo de tempo possível. Excita-me descobrir o que está do outro lado da porta, o que está ao virar da esquina, o que vem a seguir, o próximo plano, etc. Não gosto de parar, não tenho tempo para parar. Quando o faço, faço-o de forma a aproveitá-lo ao máximo. Troco - sem piscar os olhos - noites de loucura regadas a álcool, drogas ou qualquer outro vício social do género por uma boa conversa com alguém que a tenha para oferecer. A riqueza do intelecto deixa-me mais excitado do que qualquer droga e não creio que isso irá mudar alguma vez.
Já viajei mais quilómetros sozinho do que a maioria irá viajar acompanhado; cada um deles foi um degrau que subi, uma lição que aprendi e uma experiência (inesquecível ou não) que vivi. Acima de tudo, eu gosto de descobrir até onde consigo levar as minhas capacidades. Qual é o limite. Quem eu verdadeiramente sou. Uma constante luta para eliminar o balanço entre quem sou em público e em privado, combatendo a contagiosa discrepância hipócrita que faz com o mundo seja - na sua grande maioria - um sítio tão ridiculamente falso.
O meu momento preferido em qualquer viagem que tenha feito (e hei-de fazer) é a primeira hora depois de chegar. Estar sozinho, pela primeira vez, num sítio que não conheço e apenas com uma ideia de para onde tenho de ir é um momento mágico. É aí que a adrenalina dispara e a aventura começa. Eu viajo porque posso. Porque acredito que o mundo está na palma da minha mão e só me cabe a mim fazer por percorrê-lo. Partilho as minhas histórias porque gosto de as escrever e porque acredito que hão-de motivar alguém a fazer o mesmo - seja ou não esse o caso.
Duzentos dias até faltarem cerca de dezoito meses, duzentas cidades, trinta países e quatro continentes até eu voltar a casa. O tempo está a passar mais rápido do que aquilo que eu gostaria, mas é assim mesmo que as coisas são - não me queixo. Não me posso queixar. Tudo o que tenho trabalhei para o ter e tudo o que vou fazer é graças a isso mesmo. Trinta e um anos de vida foram anos suficientes para perceber que uma das coisas que eu mais gosto de fazer é viver. É para isso que acordo todos os dias. Assim sendo, não admira que seja exactamente para isso que eu viajo: para me sentir vivo.
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*admiraçao*
ResponderEliminarcurti de ler. já me deu pica para planear uma aventurazita este ano de mochila às costas.
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