sexta-feira, 14 de junho de 2013

Viajar sem companhia não é perigoso, antes pelo contrário.


Eu gosto de viajar sozinho. Não, eu vivo para viajar sozinho. Não que tenha algum problema (anti) social ou me sinta incapaz de partilhar a magia de uma viagem com alguém, longe disso. Viajar, como o tenho descoberto a cada viagem que faço, é uma das maiores lições que a vida nos pode dar. Parece que, após voltar de cada uma delas, a minha percepção sobre um ou outro assunto muda radicalmente; parece que a minha reacção em relação a certas atitudes que me rodeiam no dia a dia passa a ser outra, mais calma, mais relaxada: mais indiferente. Como se algo a que eu tivesse dado muita importância anteriormente passasse a ser meramente irrelevante.

Mas porquê viajar sozinho? Viajar acompanhado não impede que nada do que mencionei acima deixe de acontecer. Quer dizer, impede... e não impede. Para além da razão mais óbvia, que é conseguir ver o dobro das coisas em metade do tempo (isto por experiência própria - apenas dependendo do espírito aventureiro e energia de cada um) e de não ter de depender de ninguém (em termos de orçamentos e trajectos), há o passar tempo sozinho; nós na nossa companhia. Horas e horas. Dias e dias. Viagens longas de autocarro, de comboio, de avião. É aí que começa o desafio, porque - eventualmente - é aí que nos começamos a testar a nós próprios e às nossas capacidades.

A origem da minha vontade (e, até certo ponto, capacidade) de viajar sozinho é relativamente fácil de identificar, uma vez que até meio da minha adolescência passei muito tempo sozinho. Não que tenha tido uma infância infeliz - pelo contrário - mas os meus interesses, desde novo, eram bem diferentes dos 'dos outros' - estamos a falar de horas passadas fosse a montar puzzles, organizar CDs por ordem alfabética, ou mesmo a jogar Tetris (que ainda continua a ser o meu jogo de Game Boy preferido). Nunca senti necessidade de pertencer a nenhum dos grupos que se formaram à minha volta nessa altura e não foi até descobrir o hardcore que tal aconteceu.

Ainda que o hardcore me tenha ensinado muitas lições pelas quais hei-de estar eternamente grato (já me safaram bastantes vezes, nas mais diversas situações), não foi até começar a viajar sozinho que comecei a crescer a passos largos, não só como pessoa mas também como ser humano. Ver e viver realidades diferentes, tenha sido em Paris, Philadelphia, Constantine, ou qualquer outra cidade que visitei, deixou a sua marca - e que marca. Até certo ponto, ajudou-me - a pouco e pouco - a chegar mais perto de descobrir quem eu sou, perceber o que é que estou a fazer neste mundo e onde quero chegar na vida.

Não censuro quem apenas consiga viajar acompanhado, da mesma forma que não acredito que viajar sozinho seja para qualquer um. São experiências diferentes e mentalidades opostas. Ao viajar sozinho é mais que certo que a determinada altura, em determinado lugar, nos vamos cruzar com alguém que nos vai ajudar e, nesse momento, o gesto dessa pessoa vai ser tudo aquilo que precisamos e vai-nos fazer ver o mundo de outra perspectiva. Aconteceu-me em Tijuana, quando o Juan (deportado dos Estados Unidos nos anos 70 por tráfico de droga) perdeu umas boas cinco horas do seu tempo para me mostrar a cidade; em Annaba (na Argélia) quando uma senhora, que não falava uma palavra de inglês, me levou a conhecer o irmão, dono de um café na praça principal, para ele poder ficar de olho em mim e garantir que não me acontecia nada de mal; e no Reno, quando o Orlando me ofereceu boleia à saída de uma estação de serviço a meio da noite porque achou estranho eu andar perdido numa das zonas mais perigosas da cidade - entre outras.

É nesses momentos que eu sinto que cresço a passos vistos e consigo perceber quão maduro sou como adulto. Ajuda-me também a perceber até onde me consigo deixar levar e quais são os meus limites. Muito do homem que sou hoje devo-o, principalmente, às viagens que fiz nos últimos três anos. A claridade vai surgindo aos poucos, através de uma combinação que envolve o tempo que perco a pensar para comigo mesmo, as pessoas com quem me cruzo e as coisas que vou vendo pelo caminho. Claro que viajar acompanhado pode bem ser um fartote desmedido, mas nos dias que correm, as viagens para mim são muito mais que um passeio turístico - são um ponto de aprendizagem onde sacio a minha sede por descoberta e testo a adrenalina para ver qual é o meu limite, sem companhia nem distracções.

Já dizia o Alex Supertramp: "The very basic core of a man’s living spirit is his passion for adventure. The joy of life comes from our encounters with new experiences, and hence there is no greater joy than to have an endlessly changing horizon, for each day to have a new and different sun." E eu não poderia concordar mais, orgulho-me de poder dizer que é para isso que acordo todos os dias. Há um dia na nossa vida em que deixamos de esperar que ela aconteça e a começamos a viver, só tenho pena que a maioria das pessoas não se empenhe o suficiente para o encontrar.

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